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domingo, 9 de agosto de 2015

Um dia de pai. Adriana Falcão

UM DIA DE PAI

Adriana Falcão

Quando o despertador toca, e os sonhos fogem, aí começa: banho, barba, café, beijo, e rua!
A vida tem essa mania de passar as obrigações na cara dele.
– Bom trabalho, pai!
– Vê se não se atrasa pro jantar.
– E não esquece de deixar aqueles 50 que eu pedi ontem.

Quando era garoto, ele queria ser cantor de rock. Hoje trabalha muito, sai pouco, agrada médio, raramente chora, adora música, de vez em quando arrisca um samba. Desistiu de ficar rico. Desistiu de ficar jovem. Desistiu de tocar guitarra. Desistiu de falar inglês fluentemente. Desistiu de entender as mulheres. Desistiu. Infelizmente.

Faz contas e mais contas.
Vê TV pra se distrair um pouco.
Bebe quando pode.
Quando bebe, geralmente ele ama.
Parou de fumar várias vezes. Parou de dançar. Parou de pensar. Parou de insistir. Parou.
Tem colesterol alto. Fica meio preocupado. Depois passa.
Joga paciência no computador apenas quando está impaciente.
Além do colesterol, ainda tem a tendinite.
Fora a vista cansada.
Lia muito antigamente. Leu até filosofia.
Nunca mais foi ao cinema. Sexta que vem vai sem falta. Sábado tem jogo. Domingo tem pizza. Segunda tem mais. Terça tem mais ainda.
Dólar sobe. Salário fica. Restaurante tá pela hora da morte. Praia que é bom tá poluída. Problema tem muito. Candidato não falta. Solução é que tá bastante difícil. Assim não há quem agüente. Depois passa.
Já tentou promessa. Já tentou incenso. Já tentou calmante. Já tentou contar até dez. Um dia chegou a mil e duzentos. Já tentou de tudo, na verdade. Continua tentando.

A mulher pede atenção. O filho ficou em recuperação. As filhas querem ora isso, ora aquilo, sabe como é que é menina. A mais velha arranjou um namorado. A mais nova é a cara da mãe. Viu só como a mãe dela já foi linda?
Adorava cartas, principalmente as que vinham em envelope bonito e com vários selos colados, mas nunca mais recebeu nenhuma.
É praticamente fiel.
Pretende conhecer Veneza.
De vez em quando, ele olha pra trás.
O garoto que queria ser cantor de rock até que não está tão longe assim, lembra?
Luz negra, calça de nesga, rum com Coca, violão, passeata, LP, parece que foi outro dia.
Mas hoje não dá pra ter saudade. Cadê tempo? Olha a hora! Olha pra frente. Amanhã tem reunião importante. Tomara que dê tudo certo. Dizem que o negócio tá feio. Imagina como é que vai ser quando as crianças crescerem. Se ao menos desse pra juntar algum pro futuro. Como é que se diminui ainda mais esse orçamento? Só refazendo as contas. Mas a mulher reclama que nunca mais saiu pra jantar. Tudo bem. Vá lá que seja. Promete para si mesmo que não vai beber muito hoje. Só uma. Ou duas. No máximo, três. (Às 4 da manhã estará irremediavelmente arrependido.) Depois passa.
Todo dia é isso: matar um leão, encarar chateação, cumprir obrigação, garantir o seu quinhão, e ainda manter o sorriso.
Uma vez por ano tem Dia dos Pais. Ele guarda com carinho o peso de papel que o filho pintou quando ainda estava no jardim.
– Presente pra mim? Muito obrigado.
O garoto que queria ser cantor de rock hoje é pai de família e às vezes fica especialmente emocionado.
Depois passa.
Amanhã é outro dia.


Texto: Adriana Falcão; Fonte: Veja Rio


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domingo, 3 de maio de 2015

Um dia de mãe. Adriana Falcão

Um dia de mãe
Adriana Falcão

Chegou exausta, cheia de sacolas, dor de cabeça, morta de calor, faminta, caótica, e com um firme propósito: tomar um banho e cair na cama. Encontrou uma acalorada discussão a respeito da impossibilidade de dividir um computador em três (sem despedaçá-lo) e as três crianças aos berros. Todas as luzes da casa estavam acesas. A pressão subiu um pouco.
– Vocês querem fazer o favor de apagar as luzes enquanto eu tomo o meu banho?
Inútil. Todos os membros da família foram acometidos da síndrome de pensar em outra coisa, mal muito comum entre maridos e filhos durante reclamações, queixas, opiniões etc.
Saiu pela casa desligando tudo que estava aceso para o nada: lâmpadas, som, TV, internet...
– Por isso que eu liguei pra cá e só deu ocupado o dia inteiro!
– O quê?
Nada. Já tinha desistido de competir com o walkman fazia muito tempo.
No quarto da filha mais velha, dezenove blusas, cinco saias e quatro vestidos estavam espalhados em cima da cama para devida apreciação da mesma.
– Vai sair?
– Desisti. Não tenho roupa.
A pressão subiu vertiginosamente. Bobagem. Nada que um banho não resolvesse.
– Esse jantar não sai hoje não?
Esquece o banho.
– Sopa de novo?
Calma.
– Ergh!
Respira.
– Por que eu não tenho copo?
Palpitação moderada. Coisa controlável. Foi buscar o copo.
– Aproveita que tá na cozinha e frita um ovo pra mim?
Claro. Fritar ovo inclusive é uma ótima terapia ocupacional pra quem já passou por dois engarrafamentos, banco, pediatra, ginástica, supermercado, uma papelaria entupida de mães comprando material escolar e cinco reuniões de trabalho. Normal.
– Você não sabe que eu só gosto de gema mole?
Teve uma leve síncope nervosa, mas conseguiu se controlar. Afinal, a culpa era dela. Como podia ter cometido um erro tão grave? É óbvio que a mais velha e a do meio gostavam de gema mole (muito sal para a primeira, pouco para a segunda), a menor preferia ovo mexido (sal no ponto), o marido não suportava gema... Ou não suportava clara? Quem gostava de omelete? Qual das crianças teve sarampo? Quem foi que quebrou a perna?
Bateram na porta. Era o porteiro, pra avisar que ia faltar água. Ameaça de infarto. Passou, graças a Deus. Voltou quando alguém espatifou a jarra de suco no chão. (Dessa vez foi de miocárdio.) A menorzinha disse que foi a mais velha. A mais velha disse que foi a do meio. A do meio disse: tudo eu! E se trancou no quarto, de onde só saía em último caso, um incêndio ou um telefonema, por exemplo. O telefone tocou.
– Alguém pode atender enquanto eu limpo o chão ou limpar o chão enquanto eu atendo?
Todos os membros da família foram acometidos de um acesso de paralisia generalizada (espécie de praga que costuma ser causada pela presença da mãe no recinto) acompanhado de mudez instantânea. Acontece. Ela atendeu ao telefone, era engano, limpou o chão, voltou para a mesa, a sopa tinha esfriado. Melhor. Comer engorda.
– O ar-condicionado do meu quarto quebrou.
– Você se lembrou de comprar o meu livro de inglês?
– Não tem geléia não, é?
– O cachorro fez xixi na minha colcha.
– Por que eu não tenho garfo?
O telefone tocou de novo. Nova palpitação seguida de falta de ar súbita. Era para a menor.
– A Júlia pode dormir aqui hoje?
Pode.
– A mamãe deixou. Desce daqui a dez minutos que a gente passa aí pra te pegar.
Ligeiro formigamento no braço esquerdo. Angina? Isquemia? Talvez. Saiu de casa com o firme propósito de pegar a Júlia, voltar correndo, ir direto tomar um banho e cair na cama.
– Aproveita que vai sair e passa na locadora pra devolver os filmes.
– Aproveita que vai passar na locadora e compra o meu remédio na farmácia.
Casa da Júlia. Locadora. Farmácia. Ia ter de deixar o infarto e o banho pra mais tarde.


 Texto: Adriana Falcão; Fonte: Revista Veja Rio

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domingo, 1 de março de 2015

Insônia. Adriana Falcão

INSÔNIA
Adriana Falcão

Considerando que oito horas de sono são o ideal para uma pessoa, quase oito horas de sono devem ser quase o ideal. É lógico. Então, se eu conseguir dormir até a meia-noite e acordar amanhã às sete e vinte, está ótimo. Ou quase ótimo. Vou acordar feliz, bem-disposta, capaz, praticamente recuperada. Se eu dormir até a meia-noite. Ainda tenho cinco minutos. Cinco minutos é tempo de sobra pra uma pessoa pegar no sono, quer ver? Vou pegar no sono em cinco minutos. Boa noite.

Estou quase dormindo. Quase. Dormi. Não dormi? Acho que não. Mas vou dormir agora. Senão os pensamentos começam a entrar na minha cabeça e aí, minha filha, nunca mais. Um pensamento puxa outro, que puxa outro, parece até que pensamento tem corda. O negócio é não deixar entrar o primeiro, tá vendo? Foi só começar a pensar em não pensar e quando eu vi já estava pensando em pensamento com corda. E de corda pra acorda é um pulo. E é melhor eu não pensar em acordar senão eu não consigo dormir. E eu preciso estar inteira amanhã. Ou vai ser uma tragédia. Calma, também não é assim. Ainda tenho cinco minutos pra pegar no sono. Se bem que agora já não faltam mais cinco, quantos minutos se passaram até agora? Esquece e dorme. Boa noite.

Dormi. Não dormi? Se eu tivesse dormido não estaria pensando se dormi ou não dormi. Estaria dormindo. Isso prova que não dormi ainda. Amanhã vou acordar um lixo. E tenho um dia dificílimo pela frente, com uma lista enorme de coisas pra resolver: vinte minutos de meditação ao acordar, ginástica às oito, reunião às dez em ponto, consertar o carburador do carro, desmarcar o dentista, comprar tinta pra impressora, ligar pro Geraldo, esquece o Geraldo e dorme. Você já trancou a porta, já fechou o gás, já tomou seu banho, já foi à cozinha, já bebeu seu leitinho quente, já pensou em quantas calorias tem um copo de leite, você já se preocupou demais por hoje. Você precisa dormir. Isso. Eu preciso dormir. Então, boa noite.

Tem certeza de que eu tranquei a porta? Tranquei, sim. Fechou o gás? Claro. Não lembra? Logo depois do banho. Fechei o gás, fui à cozinha, bebi meu leitinho quente, quantas calorias tem um copo de leite? Eu não devia ter botado açúcar pra depois não ficar culpada. Depois eu fico culpada. Agora eu vou dormir. Já me preocupei demais por hoje, e amanhã, não, eu não vou pensar no que tenho de fazer amanhã. Tenho um dia dificílimo pela frente, com uma lista de coisas pra resolver, e se eu não dormir até meia-noite e meia, uma hora, vou terminar pulando a meditação. É uma opção. Faço ginástica às oito e de lá vou direto pra reunião às dez em ponto no Centro, vou de carro ou vou de táxi? Amanhã você resolve isso. Certo. Eu resolvo isso amanhã. Boa noite.

Mas eu já tenho coisas demais pra resolver amanhã, assim não vai dar tempo. Será que não é melhor ir pro Centro de táxi pra poder ir resolvendo outras coisas no caminho? Está resolvido. Amanhã eu resolvo o resto. Boa noite. Se eu conseguir dormir até uma e meia e acordar às nove, já está bom. Pulo a meditação, falto à ginástica, pego um táxi pro Centro e aí só falta resolver o resto da vida. Mas eu tenho o dia inteiro pra resolver tudo. Ligar pro Geraldo, terminar o relatório, passar no supermercado, chamar o homem da televisão, esquece o homem da televisão e dorme. Já deve ser bem mais de uma. Olho o relógio ou não olho? Se eu olhar e for muito tarde, vou ficar nervosa. Mas se eu não olhar vou ficar imaginando que é mais tarde do que é na verdade e fico mais nervosa ainda. Esquece o relógio e dorme. Boa noite.

Não vou pensar em amanhã, não vou pensar em hoje, não vou pensar nas horas, não vou pensar em nada. Nadinha. Um nada absoluto. Pensar em nada é pensar em alguma coisa? Olha aí eu pensando de novo. É por isso que não durmo. Durmo, sim. Quer ver? Vou contar carneirinhos. Um carneiro, dois carneiros, três carneiros, quatro carneiros, pronto, agora o quinto carneiro enganchou e não quer entrar no meu pensamento. Vem, carneiro. Por favor. Tá fazendo o que aí fora? Arranjou uma namorada, foi? Então já são mais dois carneiros, ele e a namorada, fora os filhotinhos que eles podem ter, olha só que maravilha, vão ser não sei quantos carneirinhos pra contar. Vou dormir na hora. Venham, carneiros. Um de cada vez. Podem entrar. Esses carneiros estão de implicância comigo. Estou começando a me irritar. Daqui a pouco cometo um carneiricídio. Assim que eles entrarem. O problema é que eles não entram. Esquece os carneiros e dorme. Será que, se eu pensar em capim, os carneiros entram pra comer o capim? Capim. Capim. Carneiro come capim? Esquece o capim e dorme.

Já devem ser quase duas e você aí acordada. Amanhã vai estar um lixo. Eu não vou estar um lixo amanhã pela simples razão de que vou dormir agora, quer ver? Boa noite, dormi, não dormi?, ainda não. Mas vou dormir imediatamente. É só não pensar em amanhã porque amanhã eu tenho um dia dificílimo pela frente com uma lista de coisas pra resolver: chamar o homem da televisão, comprar queijo ralado, dar uma passadinha no laboratório pra buscar os exames, descobrir se carneiro come capim, não acredito que já é de madrugada e eu estou aqui pensando em capim, esquece os pensamentos e dorme, vou dormir, você não pode pensar em amanhã, eu não vou pensar em amanhã, não vou mesmo, de jeito nenhum, amanhã eu tenho um dia dificílimo com uma lista de coisas pra resolver: descobrir se carneiro come capim...


Texto: Adriana Falcão; Fonte: Revista Veja Rio

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Inverno. Adriana Falcão

Inverno
Adriana Falcão
A paixão apagou.
Sumiu.
Devagarinho, talvez, ou então de vez, como uma bolha de sabão, o fato é que se foi.
Paixão, cadê você?
Não existe mais?
Não faz mal, não.
Dizem que depois da paixão fica o amor. (Às vezes.)
É quando a doidice sossega, a agonia desaperta, o pensamento serena, a vida acena com outras possibilidades, a sanidade retorna, a realidade se reapresenta: lua é lua, noite é noite, palavras são só palavras, e nem todas elas são boas.
Agora sim.
Também era impossível viver ardendo naquele fogo, eternamente.
Ainda bem que passou, não cega mais, aquilo já era um inferno.
Melhor assim, sem tanto calor.
Já dá pra respirar melhor.
Dá até pra raciocinar, eu sou eu, você é você, e nós dois juntos somos dois.
É só somar.
Se eu quero isso e você quer aquilo, tudo bem. (É impressão minha ou o querer da gente coincidia sempre antes? Esquece.) Nada melhor do que se sentir de novo uma pessoa.
Eu vou pra cá, você vai pra lá, mais tarde a gente se vê.
Agora eu preciso olhar as garotas saindo das escolas com seus moletons, de preferência com as mangas sobrando para fora das mãos, tomar um café, depois um licor, usar meu chapéu, sabe quando a pessoa está incrivelmente necessitada de dançar na chuva?
Você faz o que quiser: cinema, teatro, boteco, futebol, o controle remoto é todo seu.
Antes de dormir a gente se encontra embaixo do cobertor, eu e você, dois, mais esse friozinho, três. Vai ser ótimo. Muito agradável. Confortável. Calmo. Tranqüilo.
Reconheça: não é muito mais fácil viver assim, desafogado, do que naquela tormenta?
Não ouviu o que eu falei?
Deixa pra lá.
Está bom aí, em você?
Aqui em mim está um fracasso, eu confesso.
Que tal meia garrafa de vinho, uma lareira, uma música antiga, qualquer coisa?
Não tem mais jeito?
A paixão não volta?
Quem disse?
A lógica? A química, a física e a biologia? Toda e qualquer estatística? O funcionamento hormonal? O passar do tempo?
Pois, então, se danem todos eles.
Você está com 21 e eu com 19, frente a frente, enlouquecidos. Então você tem 33. (De presente de aniversário eu até escrevi uns versos, mas você continuava preferindo beijos.) De repente eu me dou conta, já fiz 40 e continuo louca. Quando você tiver 58, estaremos mais encantados ainda. Viraremos matéria de pesquisa, objeto de museu, motivo de inveja, o mundo inteiro comentando "tá vendo aqueles dois? Que loucura. Que grude. Que estranho. Eu acho que é mentira. Será? Sei lá. Que coisa!".
Deixa falar.
Não liga, não.
Então, vai: me tira pra dançar.
Agora, sim, qual o problema?
Depois eu termino a crônica.


Texto: Adriana Falcão; Fonte: Revista Veja Rio

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domingo, 4 de janeiro de 2015

Um casal perfeito

UM CASAL PERFEITO 

Adriana Falcão

O ENCONTRO – (Praia, montanha, parque, Carnaval, noite, dia, festa, bar, escritório, rua, shopping, pátio de escola ou engarrafamento.)Ele olha para ela, ela olha para ele.Ele fica na dúvida.Ela tem quase certeza.Ele só queria era ser Humphrey Bogart, mesmo que nunca tenha ouvido falar nesse nome.Ela só queria acreditar.O fato é que eles terminam juntos.Algumas considerações, uma pequena confissão, nenhuma promessa, um beijinho só.Então começa.

UM MÊS DEPOIS – (Em qualquer lugar.)É claro que ele está atrasado. É claro que ela está esperando. E se ele não vier?Veio. Chega bastante ofegante, mas finge que não estava com pressa.– Você veio correndo?– Eu? Não. Tenho asma.Tem asma, herpes, astigmatismo, essa calça listada horrorosa, é atrasado, irresponsável, desajeitado, doido, será que é apenas isso ou ainda tem mais algum defeito?Ela é totalmente incompreensível, nervosa, uma chata. Mas é tão engraçadinha, ele pensa.Então dá um beijo de desculpa nela e a tática funciona.

O CASAMENTO – (Cartório, igreja ou caminhão de mudança.)É claro que vai dar certo. Não vai? Vai sim. Sei não.Esse negócio de casamento é muito difícil hoje em dia.Casamento sempre foi difícil.Por que as pessoas casam então?Pra ficar juntas, amar, ser felizes, não sei quê, não sei que lá, essas coisas de letra de música.Porque no fundo todo mundo é romântico, sabe?Sei.Quero ver daqui a cinco anos.

DAQUI A CINCO ANOS – (Na cozinha?)Não é que casamento seja ruim é que a mesma pessoa todo dia a mesma coisa, de vez em quando cansa um pouco, é isso, e depois criança pequena dá trabalho demais, meu Deus, deviam ter avisado antes. Avisaram. Eu sei. É que a gente nunca escuta quando está apaixonado, fica surdo, fica tonto, abobalhado, fica feliz demais, uma coisa meio louca, lembra? Aquela noite? Cinco horas da manhã e a gente lá dançando. Não queria nem saber de nada de negócio de dinheiro de negócio de família de negócio de trabalho no outro dia. Não queria. Nem saber. Agora é fralda, mamadeira, IPVA de carro, supermercado, gripe, quer tomar outra cerveja? Agora não posso. Não devo. Tenho contas a pagar, sou pessoa responsável. Uma cerveja só, tá? Então tá. Já são 5 da manhã. Quer dançar? Quero.

DEZ ANOS DEPOIS – (Dentro da cabeça.)Tá passando. A vida tá passando. A vida tá passando. Será que é esta vida que eu quero? Será que ainda dá tempo de viver outra? Eu quero outra ou quero esta? Não posso afirmar muito bem, assim, com certeza absoluta. Se pudesse guardar esta vida na gaveta e ir lá fora pensar um pouco. Às vezes eu tenho essa dúvida. Mas depois passa. Tá passando.

DEPOIS DE TUDO ­ (Juntos. Ou separados.)Tirando os problemas todos, até que foi bom, foi ruim, foi médio, engraçado, meio triste, uma desgraça!, foi impossível, tá certo, foi chatíssimo, foi péssimo inclusive, mas também foi muito divertido, eu diria até que foi ótimo, excelente mesmo, foi perfeito, não foi?
E além de tudo ainda teve cada beijo...


Texto: Adriana Falcão; Fonte: Veja Rio

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domingo, 7 de dezembro de 2014

Requerimento ao tempo . Adriana Falcão

Requerimento

Adriana Falcão

Caro Senhor Tempo,

Espero que esta o encontre passando bem, ou melhor, passando o mais devagar possível.

Por aqui vai-se indo, como o Senhor quer e consente, meio rápido demais para o meu gosto, e quando vi já era dezembro.

 Foi-se mais um ano.

E com ele foram-se uma quantidade incalculável de amores, cores, idades, alguns amigos, não sei quantos neurônios, memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas, várias certezas (se não me engano, treze), algumas verdades indiscutíveis, umas calças que não fecham mais e aquele vestido de que eu gostava tanto.

Foi-se o meu gosto por vitrine.

Foi-se quase todo o meu vidro de perfume.

Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.

Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem.

Foi-se meu açucareiro de porcelana.

Que pena.

Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava necessariamente uma condenação sumária no dia subseqüente.

Foi-se a poupança.

O troquinho da gaveta.

Foi-se aquele antigo projeto.

Foram-se exatamente nove vírgula seis por cento de todas as minhas esperanças.

Será que o Senhor não se cansa, seu Tempo?

Não pensa em tirar umas férias, dar uma pausa, respirar um pouco? Não lhe agrada a idéia de mudar o andamento? Diminuir o ritmo? Em vez de tic-tac, inventar uma palavra mais comprida para compasso, mantra, ícone, diagrama?

Me diga sinceramente: para que tanta pressa?

Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.

Não precisa dar meia-volta, eu não espero tanto. Eternidade? Não. Só queria sua amizade.

Mas já é dezembro.

Foi-se mais um ano.

E o Senhor passou voando, rebocou os meus momentos, foi desbotando minhas lembranças, carregou mais doze meses inteiros levando cada instante meu de carona.

Tentei voltar atrás em algumas decisões. Já era tarde.

Não deixei nada para amanhã. Mesmo assim não fiz sequer metade do que pretendia. Imaginei várias maneiras de estancar os dias, segunda, terça, quarta, quando via já era quinta. Sexta. Sábado. Domingo. Pronto.

Pensei em fuga. Será que existe algum lugar deste mundo onde as horas não me encontrem? Fiquei meses trancada em casa. Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando.

E já passou mais um pouquinho.

Calma, Tempo! Espere só um minutinho para eu explicar melhor meu ponto de vista.

Nem todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine então quantos pobres mortais sofrem da mesma agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros, os cantos dos cucos, as denúncias das sombras, os grãos de areia escorrendo (parece até hemorragia crônica), tudo escapulindo, descendo, subindo, o frenesi dos dígitos, um, dois, três, quatro, cinco, cem, o Senhor vai tirar o pai da forca? Está fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem?

Eu conheço de cor suas obrigações.

Estou convencida de suas utilidades.

Não fosse o Senhor, não existiriam saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme anti-rugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada, não existiria sabedoria, eu sei disso.

Não tome como queixas minhas palavras, por favor não tome.

Aqui vai apenas uma súplica.

Ah, se o Senhor fosse mais indulgente, mais piedoso, mais pensativo, se fosse baiano, menos estressado, mais manso, menos rigoroso, um bon-vivant, e se distraísse aí pelo caminho, e se deixasse apreciar as paisagens, e sofresse um devaneio, e ficasse de bobeira, esquecido das horas, divagando.

Escute aqui, seu Tempo, que tal deixar passar o resto e parar quieto um pouco?


Texto: Adriana Falcão; Fonte: Revista Veja Rio

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domingo, 9 de novembro de 2014

Segunda-feira. Adriana Falcão

Segunda-feira
Adriana Falcão

Toda segunda-feira começa cedo mesmo que se acorde tarde.
As segundas, aliás, começam quase sempre na véspera, “amanhã já é segunda” (toda noite de domingo traz com ela, além da depressão habitual e do som de uma TV ligada, uma segunda-feira inevitável).

Toda segunda, há uma promessa a ser cumprida, pelo menos uma, muitos ônibus lotados, atrasos motivados pelos mais diversos motivos e um alto índice de enfartes.

Toda segunda tem esperança de um telefonema que mude a sua vida, tem um papel pra ser assinado, tem uma prestação para se botar em dia e tem uma importante decisão a ser tomada.

Toda segunda tem um pouquinho de primeiro do ano.

Toda segunda, um cantor de bar fica rouco, um bailarino está exausto, um artista de teatro aproveita sua folga até a próxima quarta e a namorada de um garçom capricha na lavanda.

Toda segunda, um homem que bebe procura urgentemente uma desculpa.

Toda segunda tem alguém que parou de beber, tem alguém que parou de fumar, tem alguém começando uma dieta.

Toda segunda, em um prato, em uma cozinha, tem um resto de bolo de chocolate.

Toda segunda, as agendas das garotas acumulam novos ingressos de show, notinhas de bar, pétalas de flor, guardanapos de papel, bilhetes de amor e ficam ainda mais gordas.
Em compensação, as folhinhas, se é que ainda existem folhinhas, vão ficando mais magras.

Toda segunda tem pelo menos um bom dia que é dito com alegria por alguém que encontrou o seu amor no final de semana, e pelo menos um que é dito com tristeza por alguém que perdeu o seu, ou porque ele se foi, ou porque o amor perdeu a graça.

Toda segunda, secretárias com muitas aventuras pra contar deixam os chefes malucos atrás de documentos, relatórios e cronogramas.

Toda segunda, os desenganados têm mais um domingo pra contar e os infelizes da vida ficam contentes porque têm menos um domingo pela frente.

Toda segunda, alguém começa uma contagem regressiva.

Toda segunda, uma expectativa se estabelece.

Toda segunda, um prazo se esgota.
Segunda sim, segunda não, já se passou uma quinzena e alguém continua esperando alguma coisa que não chega nunca.

Toda segunda, existe um trabalho chatíssimo pra fazer, a não ser que, sorte a sua, seja feriado.

Toda segunda é ensolarada, mesmo as mais chuvosas, só pra arruinar o humor da humanidade.

Toda segunda é igual à outra, menos se o seu time ganhou, se o despertador não tocou, se o seu filho nasceu ou se um terremoto destruiu a cidade.

Toda segunda, não sei quantas crianças, umas de parto normal, umas de cesariana, e todas elas, benza Deus, segunda que vem vão completar uma semana.

Toda segunda, faz um ano exato que um fato qualquer aconteceu e para alguma pessoa, por algum motivo, isso tem uma enorme importância.

Toda segunda é meio lembrança, meio começo, meio cansaço, meio maçante, meio preguiça, meio esperança.

Toda segunda tem alguma coisa ruim, alguma coisa boa e uma péssima fama.


Texto: Adriana Falcão; Fonte: Revista Veja Rio

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quinta-feira, 31 de julho de 2014

As mãos e o coração de quem cozinha

Em certa ocasião, uma pessoa pobre de alma (e eu espero já ter refletido, aprendido e evoluído), disse em uma roda de conversa, que não apreciava pessoas que trabalham em atividades em que não se usa o cérebro, citando como exemplo as pessoas que cozinham.

Certeza que é dessas pessoas que acham que o leite "nasce" na caixinha e que existem pés de bolo por aí.

Esse texto do André fala muitíssimo bem sobre o que é cozinhar. 
Vai além do cérebro, além das mãos, além do coração, é coisa da alma...



Viagem de um homem comum a um céu extraordinário
Por André J. Gomes

E como um dia há de ser com toda boa alma, hoje um homem subiu aos céus de manhãzinha e descobriu que o paraíso não é só um amontoado de anjos tomando sol num campo verde e infinito além das nuvens. Entorpecido pela surpresa, o homem se deu conta de que o céu é uma grande e abençoada cozinha.

Ali, as crianças brincam com batatas espetadas por palitos de fósforo formando rebanhos em fazendas de sonho, debaixo de uma mesa onde as avós escolhem de grão em grão o arroz e o feijão das próximas refeições. Os adultos, homens e mulheres, sem distinção, trabalham nos afazeres culinários com a seriedade e o prazer de quem leva adiante sua única causa.

O recém-chegado se põe a um canto e observa o funcionamento perfeito das coisas. Repara na organização sublime das panelas e utensílios, na limpeza do chão, nas paredes de cada cor, na integridade do trabalho de um e outro, na beleza da vida que acontece ao sabor dos detalhes. Ele deita os olhos na espuma branca do leite que ferve e derrama a manhã sobre o mundo, respira fundo o cheiro afetuoso do pão feito em casa, do café que borbulha para acordar o dia, dos temperos sutis, dos bolos que crescem lentos no forno como os amores novos em seu saber esperar.

E assim ele vai se deixando estar ali, entregue à observação das miúdas formalidades culinárias, ao rigor elegante das pitadas, ao movimento organizado dos anjos preparando a ceia do mundo, quando nota a seu lado a presença definitiva de uma fada, porque no céu também há fadas, organizando e inspirando a orquestra sublime em seus afazeres.

Com a beleza do riso das crianças que brincam na praia, a fada o olha nos olhos e o convida a passear pelo céu a seu lado. Uma porta se abre, ela o leva até o quintal e lhe mostra a floração das alfaces, os brotos da couve-flor, o som genuíno dos rabanetes e cenouras e mandiocas arrancados da terra sob o destino sublime de enfeitar e fortalecer as saladas de frescores e frescuras divinas.

E o espetáculo de viver e interagir se faz escandaloso aos cinco sentidos do homem na grandeza da horta, na perfeição da cozinha, na beleza da fada que tem o riso triste, os olhos de afeição, as mãos e o coração de quem cozinha para manter o mundo em equilíbrio.

O homem e a fada caminham juntos, em seus dois estados diferentes de existir. Ela conta a ele em sua dicção perfeita de fada os segredos das grandes receitas, revela o ponto exato dos cozimentos, os ingredientes insuspeitados, enquanto as panelas bafejam encanto e mistério. À hora do almoço, ela o convida a sentar-se à mesa, e ali há mais pessoas do que seus olhos podem ver. Durante a refeição, as conversas são longas e saborosas, das entradas à sobremesa e ao café.

Eles comem sorrindo, depois dormem a sesta sob um vento manso. A fada acorda o homem à tardinha e o leva para caminhar sobre as nuvens. Anoitece, os assuntos se multiplicam como as safras mais fartas e eles continuam ali, beliscando as estrelas, contemplando a noite, a lua e o susto do amor.

Ela diz “bem-vindo”. E caminha sob o olhar humano do homem até a beirada de um penhasco no céu. Lá de cima, polvilha a Terra de amor e açúcar, resgatando em hora certa os seres pequeninos aqui embaixo de seus desastres domésticos, tornando seu caminho mais sutil e suportável.

Em sua infinita graça e devoção de quem cozinha por puro afeto a seus comensais, ela sorri um riso meio triste e abre inteiro, generosamente, o apetite do mundo para o maravilhoso manjar da vida.


Hoje um homem subiu aos céus. E descobriu que o paraíso é uma grande e abençoada cozinha, e que lá existe uma fada que sorri o sol e faz a vida mais doce.

° ° ° ° ° °


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